A última

Game over.

Enquanto caminhava a passos largos pela rua escura, ele se sentia nocauteado: acertado por um golpe direto no coração. Tê-la visto com outro, bebendo, brindando, beijando, tinha sido a cereja do bolo numa noite que já não tinha começado bem. Era sexta-feira, e ele já acumulava toda a tensão da semana de trabalho. Chegara em casa cansado, exaurido, decidido a chutar o balde e descarregar todos os problemas numa garrafa de uísque.  Mas não tinha passado sequer da terceira dose.

Ela o tinha visto. Ele tinha certeza disso. Conhecia cada traço que a fisionomia dela expressava, como linhas, sombras e cores de um desenho pintado à mão. Ela o vira, e sorrira. Mas não é porque sorria que estava feliz. Na verdade, ele sabia que, para ela, os sorrisos mais bonitos escondiam as dores mais feias. Ele sabia que ela não estava feliz, mas estava se virando como podia. Já tinha até uma nova companhia. Ele não a culpava. O golpe fatal tinha vindo dele: as mentiras, a indiferença, a traição com a melhor amiga. E ela agora estava com aquele cara, que a cercava por todos os lados com mimos e carinhos.

Se tornara desnecessário ali. O ar tinha ficado pesado demais para ser respirado por todas as pessoas do bar. Levantou-se antes mesmo que o garçom – santificados sejam os garçons! – trouxesse a conta. O dono do bar o cumprimentou com a cabeça, ciente do motivo que o fazia ir embora. Havia sido ele quem a levara ali pela primeira vez. Desde o fim do relacionamento, o local tinha se tornado pequeno demais para os dois. Ela estava na mesa do canto da parede, o melhor lugar. Quantas brigas e reconciliações já os dois não tinham tido naquelas cadeiras? Preferiu não pensar nisso. Pensou até em ir cumprimenta-la, mas achou melhor ficar em silêncio e ignorar do que falar e se arrepender.

Game over.

Enquanto caminhava a passos largos pela rua escura, ele sentia o vento frio castigando o rosto. Enfiou as mãos nos bolsos do moletom, lembrando do sorriso inestimável da amada. E ele nem sequer podia chamar de destino as consequências dos próprios erros…

Pequena circulação

Todas as vezes que eu disse que não te queria, eu estava mentindo, amor. É que de vez em quando, eu tenho umas recaídas de amor por mim, e a cabeça quer que eu pense que tu não estás lá, entranhado no meu emaranhado de nervos. Mas minhas terminações nervosas dão direto no coração, ah, o coração… E ele não me deixa esquecer de tu, bombeando alegre todas as letras do teu nome. Então não te preocupas, amor. Porque todas as vezes que eu te disse não era mentira. A verdade é que, na maior parte do tempo, amor, eu sou louca por ti.

E o que me dói, amor, na cabeça e no coração, é saber que tu não estavas mentindo…

definições que a gente não aprende na escola

AMIZADE é quando você gosta absurdamente de alguém, mas não sente vontade de dormir com essa pessoa – e se sente, acha errado.

ATRAÇÃO é quando a simpatia e a capacidade intelectual de uma pessoa importam menos – ou não importam – que o número das roupas que ela usa.

SAUDADE é quando você sente que uma parte do seu corpo está fora de você, sendo um pedaço saliente do corpo de um outro alguém.

FRUSTRAÇÃO é quando você fecha os olhos e sorri triste pensando no que poderia ter sido.

ARREPENDIMENTO é quando você fecha os olhos e sangra pensando no que poderia – ou não – ter feito.

RAIVA é quando você fica de mal com o mundo por causa de algo que alguém fez a você.

ÓDIO é quando você fica de mal com o mundo e com você.

ANGÚSTIA é quando você não sabe o que fazer consigo mesmo.

TRISTEZA é quando você não sabe o que fazer consigo mesmo e com os outros.

FELICIDADE é quando a tristeza se torna apenas uma lembrança que não te deixa triste mais.

AMOR é quando você já passou por tudo isso, e ainda assim segue em frente…

abril pro fim

Essa é a segunda vez que eu entro em abril com lágrimas nos olhos. Mas dessa vez, eu não chorei sozinha. E tá doendo muito, mês de abril. Talvez eu devesse riscar você do meu calendário. E ai, quem sabe, você parasse de riscar as pessoas do meu coração.

Talvez meu inferno astral se concentre nesse período. Mas Deus do céu, até quando?

Não se afobe, menina. O mundo não acabou, seus pés ainda estão no chão, e não vão sair de lá. Esse buraco que você está sentindo é só do lado de dentro, você não vai tropeçar e cair nele. E esse peso que você carrega vai ficando mais leve, mais leve, até desaparecer. E ai você vai respirar fundo de novo, e perceber que tudo passa. Uma hora passa. Tem que passar. Pelo menos até o ano que vem…

(re)Encontro

Aparece na minha porta, senta no meu sofá, liga a TV, sinta-se em casa na casa que eu sempre quis dividir com você. Bota as pernas pra cima, fica confortável quanto eu corro ali pra passar batom.

Está entardecendo, amor. Eu te ofereço um café enquanto você me fala da sua nova vida que eu não quero saber. E a sua voz entorpece o resto que me resta de juízo, e só o que eu consigo pensar é no jeito doce com que você mexia no meu cabelo.

E eu sorrio, e você acha que eu estou feliz por você. Mas eu choro, e você nem percebe.

E depois você vai embora, deixando aqui um vácuo maior do que antes de você ter chegado..

quando eu fecho os olhos

Essa noite eu sonhei contigo, amor. E parecia tão real que eu queria poder gravar pra te mostrar depois. Tu chegava lá em casa, batia no meu portão. E eu corria pra abrir, arrumando meu cabelo no caminho. E tu entrava e eu te levava pra sentar no sofá, e a gente ficava assim, quietinho, sem nem se tocar.

E eu ficava tão feliz, mas tão feliz só de estar perto de tu que eu nem ligava de não poder sequer segurar a tua mão.

E ai o tempo passava, e todo mundo ia embora, e só ficava eu e tu. E tu se levantava e me puxava pela mão. E a gente ia pro quintal, e tu me olhava nos olhos. E tu me dava um beijo, e a gente não queria mais soltar um do outro.

E não importava ninguém mais. Tu não se importava com ninguém mais.

E foi tão real, amor, que também no sonho tu foi embora.

E todo mundo tá lá fora pulando carnaval. Mas eu to aqui, escrevendo. Porque essa noite eu sonhei contigo, amor. E foi tão real que eu queria poder gravar.

Porque eu não acho que tu ia querer ver depois.

canção do apelo em rimas pobres

Ai, amor, que falta eu sinto

De você aqui comigo,

De quando tudo era lindo,

Quando tudo era verão.

Saudade das horas vagas,

De te abraçar na calçada,

De ouvir o teu sermão.

Ai, amor, veste um sorriso

Vem bater na minha porta,

Me canta uma história, uma canção.

E se não for pedir muito,

Olha meus olhos bem profundo,

E não solta da minha mão.

Me leva pra tua casa,

Me beija no sofá da sala,

Espalha nossas roupas pelo chão.

Me faz perder os meus medos,

Me diz que tudo está perfeito,

Que não é imaginação.

E se depois de tudo isso,

Para todos os pedidos,

Tua resposta ainda for não,

Então num último suspiro, eu te peço,

Amor querido,

Que devolvas meu coração.

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