Agridoce de morango

Esse texto nasce hoje com o atraso de uma memória fraca, de um juízo relapso que, apesar dos tropeços, comanda um coração cheio de carinho. Há um ano, foi feita a promessa de escrever palavras que, com algum esforço, pudessem traduzir em vogais e consoantes uma das pessoas mais encantadoramente ácidas que por este mundo caminham. Afinal, uma pessoa cujo aniversário é na véspera do dia dos namorados precisa ter a doçura capaz de ganhar o presente que não seria seu, e a capacidade de ironizar o fato recebido.

Há muitas metáforas a serem feitas desde que apareceu na vida da que vos escreve. De lá para cá, agiu como uma cobra: não pelo veneno – que sabe ter, mas pelas mudanças a que se submeteu, às vezes para seu próprio bem, às vezes por abrir mão dele. O fato é que hoje, com cabelos curtos como sua paciência, trocou de pele e se fortaleceu, e enxerga a vida com a clareza do sorriso largo. E daí que apareça uma barroquinha na bochecha? Todo mundo sabe que até o mais perfeito caminho terá seus buracos.

É discreta e visível, despojada e tímida, afetuosa e irônica. Uma série de paradoxos poderiam ser aqui descritos, e nunca se chegaria a um consenso. É multi, tantas em uma só. A opinião, ao contrário dos cachinhos que vêm e vão, é imutável. E defender o ponto de vista tão veementemente faz com que a chamem grossa. Pura calúnia, meu caro! Ela é tal qual um morango, deve ser apreciado lentamente, acostumando o azedinho no céu da boca para, só então, perceber o doce. Os apressados que abocanham tudo de uma vez têm o desprazer de sentir nas papilas o gosto ácido, e o arrepio ruim na nuca.

Pessoas assim, morangos, muito me interessam. É que vão chegando, se aproximando, permitindo contato conforme sentem a situação. E uma vez inseridas nela, conquistam e se tornam especiais. O que eu digo a você, minha querida, é que não os deixe adicionar-lhe açúcar. Não permita nunca que lhe coloquem temperos para que mais rápido a compreendam. Pois estes, por impaciência e outras futilidades, perdem todo o encanto, toda a percepção de descobrir seu inigualável sabor agridoce.

Feliz aniversário.

 

Para Ágnes Souza http://www.facebook.com/agnes.souza.7